Três menções

Enquanto eu me divirto com a contemplação do que acho que deve fazer parte de uma lista dos dez melhores jogos de cada ano, existem alguns títulos que, por diversas razões, não teriam como fazer parte de tal rol, mas que mesmo assim gostaria de falar sobre. Bem da verdade, eu não tenho ideia se eles são ou não melhores do que aqueles que listei, mas isso não importa. O importante é que os considero jogos excelentes, que devem ser jogados, e, assim, quero fazer menções sobre eles.

Para manter o espírito das listas de fim de ano (mesmo já estando em 2011), essa aqui será chamada de:

Os três melhores jogos de 2010 que não puderam entrar na lista dos dez melhores, mas que mesmo assim quis citar de alguma maneira


VVVVVV

Desde o momento que joguei Pathways pela primeira vez, passei a seguir com afinco tudo que é feito por Terry Cavanagh. Cavanagh tem uma habilidade incrível, em que consegue criar com proficiência tanto jogos com foco puramente mecânico, como Don’t Look Back, quanto títulos que exploram diferentes aspectos que podem ser abordados por videogames, como o próprio Pathways e Judith.

VVVVVV, maior produção sua de 2010 – e creio que a maior de todas em geral – está no grupo de títulos que focam em características mecânicas. Trata-se basicamente de um jogo de plataforma; ao invés de um pulo, o personagem pode alterar sua gravidade, escolhendo se irá andar pelo chão ou pelo teto. É um conceito simples, mas um muito bem explorado. Em cada uma de suas pequenas áreas, que poderíamos chamar de mundos, um diferente aspecto é colocado em cena, mudando significantemente a maneira como devemos utilizar a única mecânica que temos disponível. Por conta dessa criatividade, a jogabilidade me impeliu a querer repetir a aventura mais de uma vez, tentando coletar todos os Shiny Trinkets (itens colecionáveis), sem nunca se tornar cansativa.

Além disso, quero ressaltar que a trilha sonora, muito bem produzida por Magnus Palsson, é tão boa que, por si só, é motivo suficiente para que VVVVVV seja jogado. Ele está atualmente custando 5 dólares, e pode ser comprado via Steam ou em seu próprio site.


Digital: A Love Story

Creio que todo brasileiro já deve ter ouvido sobre o quão única é a palavra “saudade”, sobre sua ausência em outras línguas e como ela é dificilmente traduzida. Mesmo tendo já escutado sobre isso incansáveis vezes, nunca acreditei muito nessa peculiaridade. Não que eu seja um grande poliglota, mas eu jamais achei um contexto em inglês ou francês, pensando em traduções e versões, em que não pudesse substituir saudade com exatidão. Digital: A Love Story provou que eu estava errado.

Digital: A Love Story é um chamado Text Adventure, como Zork. Nele temos o controle de um jovem sem sexo especificado, que foi munido de um novo computador. Toda a “aventura” acontece em BBSs (Bulletin Board Systems) – essencialmente fóruns – no qual lemos mensagens publicadas por outros usuários. Pouco a pouco vamos conhecendo as outras figuras que usam do meio virtual para se comunicar, eventualmente conhecendo alguém por quem a afeição parece ir além de amizade… para enfim nos metermos dentro de uma grande conspiração.

A história é tocante e bem escrita, mas o que realmente prende a atenção é a maneira como se dá sua progressão. O jeito como temos de entrar em BBSs diferentes, trocar novas mensagens e procurar informações em lugares ocultos que é que tornam o contar da trama tão intrigante.

A questão da saudade que apontei aparece por todo o clima de Digital. No tempo em que esse sistema específico de BBS era usado eu era pouco mais do que um feto, e, no entanto, a sensação que tive foi a de que sabia exatamente sobre o que se tratava, como se estivesse visitando um lugar que há muito tempo não via. O sentimento não poderia ser nostalgia pois, como disse, eu não vivi isso. E, contra a lógica, Digital: A Love Story me fez sentir como se estivesse momentaneamente recuperando algo que havia sido perdido, algo que sabia que iria embora novamente dentro em pouco, mas que, por aquele breve momento, podia ser mais uma vez aproveitado. Eu não sei como definir isso, além de chamar de saudade.

Digital: A Love Story é gratuito, então não existem motivos para não jogá-lo. Ele pode ser baixado aqui.


Sleep Is Death

Jason Rohrer é uma figura bastante única que merece uma atenção à parte dos jogos que faz – mas esse não é o propósito desse texto. Uma produção sua, Sleep Is Death, lançado no início de 2010, não é exatamente um jogo. Trata-se mais de uma plataforma para se contar histórias, algo não muito diferente dos RPGs de mesa. A diferença é que ao invés da imaginação há uma interface própria aos videogames. O jogo funciona porque a ferramenta que o “mestre” tem é fácil de ser usada, o que o permite alterar rapidamente a cena, de acordo com as ações do jogador. Sua cadência é vagarosa, e boas histórias são raras – como a liberdade é plena, é muito fácil desandá-las -, mas quando todas as peças movem-se para posições corretas, o resultado é sem igual.

Sleep Is Death só é tão bom quanto as pessoas que o jogam, mas isso não é culpa do sistema. A ferramenta é competente e interessante de ser usada. A possibilidade está lá, cabe aos jogadores usá-la de maneira inteligente. Mas, talvez, mais do que um jogo de boa qualidade, Sleep Is Death mostra que Rohrer continua criativo, desbravando áreas dessa mídia que ninguém mais explora.

Sleep Is Death pode ser comprado aqui. O preço é indefinido, cada um paga aquilo que achar justo.

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