Uma viagem turbulenta pela beira do espelho. – Review de Mirror’s Edge

artwork-menor-resolucaoMirror’s Edge é provavelmente um dos mais audaciosos lançamentos de 2008. Em essência pode-se dizer que é apenas um jogo de plataforma, já que consiste em grande parte de pular através de obstáculos, correr por paredes, se pendurar em beiras etc., não muito diferente do que já vimos em outros jogos como Prince of Persia. Entretanto o grande diferencial está em sua perspectiva: a visão em primeira pessoa.

A história se passa em uma cidade mais ou menos nos moldes do livro 1984. A liberdade de expressão é restringida e a vigilância é constante. Para que troca de informações ocorra, algumas pessoas, que se autodenominam Runners, vivem à margem dessa cidade, correndo e saltando pelos prédios, longe dos olhos de outras pessoas. A trama do jogo gira em torno de uma Runner chamada Faith, a personagem da qual temos controle, tentando provar a inocência de sua irmã que foi falsamente acusada de assassinato. Infelizmente a história de Mirror’s Edge é extremamente corrida e mal explorada. Tudo acontece rápido demais para que qualquer interesse pelos personagens, com exceção de Faith, possa acontecer. A própria situação de ditadura na qual a cidade se encontra não é mostrada de nenhuma maneira, só sabemos que ela existe através de alguns poucos diálogos entre os personagens. Não há explicação de como essa constante vigilância é feita, que tipo de informação esses Runners levam adiante, para que tipo de pessoas eles trabalham etc. É possível se deduzir algumas coisas, mas não é suficiente para prender sua atenção por muito tempo. Entretanto isso 195052-1216591786044acaba não sendo um problema muito grande, uma vez que a aventura tem apenas cerca de cinco horas de duração ela terá terminado antes que você se desinteresse pela trama. Por mais que não haja desculpa para que a história seja tão mal contada o maior atrativo do jogo estava em sua jogabilidade diferente; e ela funciona? Sim, mas sofre alguns tropeções no meio do caminho.

O principal elemento em Mirror’s Edge está em correr através de obstáculos mantendo sempre sua velocidade. Faith desliza por baixo de passagens, tromba contra portas para abri-las rapidamente, rola no chão para que não perca momento etc. Para ajudá-lo a saber qual caminho seguir há a chamada Runner’s Vision, basicamente ela pinta de vermelho coisas como escadas, barras, canos etc. indicando a você para onde deve ir. Além disso há um botão que faz com que Faith olhe na direção de seu objetivo, dando uma indicação geral do percurso que deve ser feito. A visão em primeira pessoa não é um empecilho para isso. Quem sabe uma vez ou outra você chegue a cair antes de apertar o botão de pulo, mas isso acontece raramente. Quando você consegue encaixar todos os movimentos de maneira perfeita, sem que haja nenhuma interrupção entre eles, a experiência que se tem com Mirror’s Edge é como em nenhum outro jogo. Ele flui de maneira incrível e a visão em primeira pessoa aumenta sua imersão fazendo-o sentir, como Faith diz na apresentação do jogo, como se estivesse à margem dos espelhos. O problema é, como dito acima, quando isso tudo funciona. E é nessas horas que o jogo sofre com alguns tropeções.

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O primeiro problema aparece em relação ao trajeto de cada fase. O jogo é linear, mas nem por isso você deixa de ficar perdido muitas vezes, especialmente em ambientes fechados. A Runner’s Vision ajuda, mas o que acaba acontecendo na maioria das vezes é que ela te mostra para onde você tem que ir, mas não como chegar lá. Na maior parte das vezes é apenas uma questão de descobrir em qual parede você deve correr e quicar, mas esses momentos sempre quebram o fluxo do jogo e rapidamente se tornam tediosos. E isso na melhor das hipóteses, porque muitas vezes você não tem tempo de calmamente descobrir o que fazer pois um batalhão de polícias armados estará atrás de você, e aqui entra o segundo problema de ME: o combate.

721180-mirrors_edge_okt_7_3A premissa do jogo é que você não tenha que lutar, apenas fugir. Nenhuma arma é dada a você, a única maneira de adquiri-las é desarmando um oponente, mas mesmo assim Faith a descarta quando as balas acabam. E isso não é problema algum, é na verdade um dos pontos mais interessantes do jogo, isto é, até que você chegue em alguns dos vários locais em que é obrigado a lutar contra os guardas. Nesses momentos o jogo se torna extremamente frustrante virando apenas uma tarefa de tentativa e erro. Mesmo que você desarme um inimigo a animação de tirar a arma das mãos dele para depois nocauteá-lo dá ampla oportunidade para que os outros guardas atirem à vontade em você. Verdade que o jogo aconselha que, em caso de confronto com vários guardas, que os isole e lute com um de cada vez. Mas, mesmo assim, são necessários pouquíssimos tiros para derrubarem Faith, ou apenas dois socos de um soldado caso falhe em desarmá-lo.

586528-mirrors_edge_artwork4Esses dois problemas somam a um terceiro; para um jogo que se baseia tanto em sua fluidez existem pequenas coisas que parecem não terem sido muito bem pensadas. São alguns detalhes que se acumulam e aparecem sempre nas piores horas possíveis. Por exemplo, o botão que o coloca na direção que deve ser seguida faz com que sua cabeça vire instantaneamente na direção do objetivo. Grande parte das vezes em que você precisa desse botão será em um momento de perseguição, em que você está fugindo de guardas, franco atiradores e helicópteros. Isso significa que, caso o objetivo esteja em uma direção oposta a qual está correndo, você mudará de direção completamente, perdendo toda sua velocidade e quebrando o fluxo do que estava fazendo, muitas vezes levando-o a errar o próximo pulo ou a levar chumbo grosso. Qualquer outra forma de indicação, mesmo que apenas visual, evitaria esse problema 100% das vezes. Outro problema que aparece ocasionalmente é o fato do botão de pulo ser o mesmo que executa a wallrun (as corridas pela parede). O que acaba acontecendo é que quando você deseja fazer um acaba fazendo o outro, levando à mortes desnecessárias que parecem estar fora de seu controle. Além disso muitas vezes em pulos mais complicados não há uma clara indicação entre o que você fez para que ele desse certo e o que fez para errar e morrer levando, novamente, a uma sucessão de tentativas e erros. Nenhum desses fatores apresenta um grande problema, o jogo rapidamente coloca você novamente no último checkpoint, que em geral não estão muito distantes de onde você morreu. Entretanto eles constantemente quebram o fluxo do jogo que, como já dito, são seus melhores momentos.

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Seria fácil deduzir que, com tantos pontos negativos, Mirror’s Edge é um jogo ruim. Não é o caso. Ele sofre de tropeções no meio do caminho, mas nos momentos em que tudo funciona da maneira que deve ME certamente oferece algo único como nenhum outro jogo já fez. Com certeza há espaço para muitas melhorias e, como já foi anunciado que este é apenas o primeiro de uma trilogia, fica aqui a torcida de que seus produtores ouçam as várias críticas feitas ao jogo e melhorem sua seqüência.

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