As várias personas de Persona – Review de Shin Megami Tensei Persona 4

347220-p43Continuações não são coisas simples de serem feitas, especialmente se o título anterior da séria teve uma boa aceitação do público. Os fãs sempre esperam que algumas mudanças sejam feitas, mas nunca extremas, mantendo assim a característica inicial do produto que havia agradado antes. Na metade de 2007 (no ocidente) a Atlus nos agraciou com o belíssimo Shin Megami Tensei: Persona 3 um jogo que, apesar de não ser sucesso absoluto em vendas, agradou tanto a crítica quanto jogadores, criando instantaneamente uma legião de fãs. O anúncio de que sua continuação seria lançada foi certamente uma boa notícia, mas uma que recebemos sem tanta animação. De que maneira Persona 4 poderia alcançar a profundidade do jogo anterior? Como que ele poderia conter o mesmo nível de simbologia, tratando tudo de maneira adulta e significativa? Não haveria como ser a mesma coisa. E, de fato, não é. É melhor. Muito melhor.

O mesmo, mas diferente.

Bem, vamos pelo início. Você tem o controle de um herói mudo que se muda para a casa de seu tio, em uma cidade pequena do interior. Logo no início descobrimos que nosso personagem tem um estranho poder que o permite entrar em televisões lhe conferindo a capacidade de acessar um outro mundo existente dentro delas. Ao mesmo tempo, no mundo de fora, estranhos assassinatos têm ocorrido, em que pessoas aparecem mortas penduradas em antenas. Cabe a você desvendar, dentro de um ano, o mistério existente no outro mundo e capturar o assassino.

O jogo tem também seus momentos menos sérios e sabe fazer bom uso da comédia.
O jogo tem também seus momentos menos sérios e sabe fazer bom uso da comédia.

O molde básico da jogabilidade de Persona 4 segue aquele visto em seu precursor. Temos duas grandes partes dentro do jogo, a da exploração, desta vez dentro das televisões, e a do convívio social na cidade. A parte da exploração se assemelha um pouco aos jogos chamados de roguelike, em que as dungeons são criadas aleatoriamente a cada vez que se entra nelas, assim como a posição de inimigos e tesouros. A cada segmento do jogo um novo lugar a ser explorado é aberto, sendo que cada um contém em média dez andares. Os inimigos são visíveis no mapa aparecendo apenas como modelos genéricos, mas é possível ter uma idéia da força deles pelo seu tamanho. O combate também segue bem de perto o modelo visto em Persona 3, mas melhorado em muitos aspectos. Os tradicionais turnos voltam a aparecer e seus companheiros continuam agindo automaticamente. Há agora a opção de controlá-los manualmente caso queira, mas a IA cumpre quase sempre o seu papel sem problema nenhum. Algumas das mudanças entre o combate de P3 para P4 incluem o fato de agora existir apenas um tipo de ataque físico, o que diminui em muito o tempo para descobrir a fraqueza de um monstro. Além disso, quando um personagem é atingido por um elemento forte contra seu Persona (estou usando o masculino propositalmente), ele já se levanta no turno seguinte, o que praticamente anula a possibilidade da tela de Game Over aparecer antes mesmo que pudéssemos ter controle na batalha. Uma coisa ainda irritante é o fato de você perder de vez caso o personagem principal morra, mesmo que todos os seus companheiros ainda tenham a vida cheia. Em parte das vezes seus amigos levarão golpes fatais em seu lugar, mas isso não acontece quando os monstros usam magias que atacam todos os personagens, o que te leva a alguns momentos bem frustrantes.

O ataque em grupo continua presente.
Os ataques em grupo continuam presentes.

A parte de convívio social na cidade é provavelmente a mais interessante do jogo. Como um garoto adolescente temos de ir todos os dias à escola, responder perguntas dos professores, estudar para provas, participar de atividades extracurriculares etc. Pode soar meio estranho que a melhor parte do jogo seja um simulador de cotidiano, mas é a maneira como ela se amarrava com o combate que é interessante. Em cada um desses lugares do dia a dia seu personagem interage com outras pessoas. Ao fazer amizade com elas forma-se um Social Link, que fortalece um tipo de Persona específico. Quanto mais forte é a amizade feita com uma pessoa, mais fortes serão os Personas que podem ser criados. Além disso, o relacionamento com alguns personagens traz outros benefícios. Por exemplo, aumentar o nível de seu Social Link com os membros de sua equipe abre novas habilidades, como a já mencionada capacidade de tomar um golpe mortal em seu lugar. Isso poderia ser apenas um mero trabalho ao qual nos forçaríamos para melhorarmos a força do personagem no combate, entretanto as histórias de cada uma das pessoas que encontramos são muito interessantes e bem contadas, a ponto de queremos conhecê-las cada vez mais, tornando a conquista da amizade delas em uma recompensa por si só. 869589-picture_79Um detalhe muito interessante é que muitas das vezes em que se sai com alguém acabamos encontrando outro dos personagens. Através disso temos acesso não só ao relacionamento dos habitantes da cidade conosco, mas também entre si, o que deixa a experiência muito mais orgânica e verossímil.

Mas por que é tão bom?

Esse misto de diferentes jogabilidades já é uma das melhores qualidades do jogo, entretanto se fosse apenas por isso não haveria razão para que Persona 4 fosse superior ao seu predecessor. O motivo para isso é muito simples: sua temática.

O salão de veludo mudou de forma, mas é ainda Igor que fará novas Personas para você.

O salão de veludo mudou de forma, mas é ainda Igor que fará novas Personas para você.

Quando uma pes- soa é jogada dentro do mundo da televisão a sua Sombra aparece. Essa sombra re- presenta todas as facetas, ou per- sonas, que a pessoa tenta re- primir e esconder do mundo. Só depois de acei- tá-la é que é possível vencê-la. Entretanto esta aceitação não se trata apenas de acreditar que aquilo diante de seus olhos é um outro pedaço de si, mas sim de compreender que uma pessoa é composta de inúmeras facetas. Ainda assim, seria muito fácil usar esse tema e cair em um grande clichê. Entretanto o jogo constantemente nos prova o contrário, tratando o jogador sempre de maneira adulta e matura. Somos apresentados à personagens muito bem construídos que precisam aceitar difíceis e diferentes partes de si, como ódio perante a alguém próximo, incerteza quanto a própria sexualidade, insegurança quanto ao próprio futuro, entre outros. E enquanto vemos estes personagens se desenvolverem a nossa volta, se desenvolve também cada vez mais você, o jogador, que acaba por compreender melhor a si.

Shin Megami Tensei: Persona 4 é fantástico porque vai muito além do que a maioria dos outros jogos foi. Ele requer que você entre de cabeça (da mesma maneira que nosso personagem coloca sua cabeça dentro da tv) e faz com que você pense. É impossível que em algum ponto você não questione que tipo de sombra apareceria para mim? O que ela diria? Qual a persona que visto para o mundo, qual persona que escondo de todos? Porque o jogo nos coloca, quer queiramos ou não, em uma posição em que somos obrigados a ir além do que vemos na tv e, consquentemente, trazemos também o que se passa lá dentro para fora. O próprio final do jogo é exemplo disso; para que o jogador alcance o fim verdadeiro é necessário que ele reflita e não se deixe enganar por verdades convenientes que aparecem na sua frente. As dicas para se fazer isso estão lá, mas é necessário que se descubra o caminho sozinho.

Persona 4 não só é um excelente jogo, como também traz a quem o joga algo que não será facilmente esquecido. É uma experiência que ficará com você muito tempo depois de desligar o jogo pela última vez.

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