Novo só no nome – Review the Tales of Symphonia: Dawn of The New World

Imagine a seguinte situação: É uma tarde de um dia qualquer e você liga sua televisão. Um filme que você nunca viu está passando, mas você parece reconhecer o nome de alguns personagens. Pouco tempo depois, você percebe que se trata de uma continuação de um filme do qual gosta muito, porém nenhum dos atores que participaram da filmagem original estão presentes. Não só isso, como todos os aspectos – roteiro, direção, níveis de produção – parecem inferiores aos do filme que você já viu. No fim das contas, tratava-se de uma daquelas continuações que utilizam de um nome de sucesso para facilmente atrair o público – e seu dinheiro – mas que, no entanto, tem apenas uma parcela de qualidade do trabalho original. Esta é a sensação que Tales of Symphonia: Dawn of the New World transmite ao jogador.

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Emil, o protagonista do novo Tales of Symphonia

A história se passa dois anos após o final do primeiro jogo, e abre de maneira bem interessante. Desta vez temos o controle de Emil, o novo personagem principal, que diz ter tido seus pais assassinados por Lloyd, ninguém menos do que o herói da trama original. Entretanto, não se anime. A razão é muito menos imaginativa e intrigante do que você pensa. Além disso o jogo não cria uma tensão para que, quando a revelação ocorra, caia como uma bomba em seu colo; ela é dita como se fosse algo tão trivial quanto um “bom dia”. Grande parte dos diálogos parecem estar fora de lugar e são anti-climáticos. Tudo que deveria chocá-lo passa despercebido, tamanha a inabilidade do título em contar sua história. Soma-se a isso o problema da tradução. Os atores conseguem fazer um bom trabalho e interpretam bem seus personagens, em compensação os textos apresentam sérios problemas. Ele varia de frases mal escritas e mal articuladas até totalmente incompreensíveis. Isto faz com que a intenção dos personagens soe estranha, temos a impressão de que eles não transparecem honestidade. As atitudes de cada um, por sua vez, acabam parecendo forçadas e fora de contexto. É fácil perceber logo de cara que um trabalho cuidadoso não foi dado à tradução. Qualquer revisão um pouco mais minuciosa teria evitado a maioria dos erros encontrados. Entretanto este desleixo mostra claramente que o título foi feito às pressas. Aliás, este é um problema comum ao jogo todo.

Dawn of the New World cheira à produção acelerada em várias camadas. A primeira coisa a ser reparada, e a mais evidente delas, está em seus gráficos. Eles são iguais ou inferiores à versão de Gamecube e não há desculpas para isso. Todos sabem que o Wii não tem grandes capacidades gráficas quando comparado aos outros consoles da geração atual, no entanto ele é mais do que capaz de produzir coisas mais bonitas do que as vistas na plataforma anterior da Nintendo – nós já vimos isto. É evidente que faltou capricho; nem mesmo quando você libera os golpes mais fortes em combate, cada um com sua animação especial, algo te chamará a atenção. Na verdade, é mais provável que você fique entediado de ver a mesma animação sem graça, de novo e de novo, a ponto de simplesmente parar de usar os tais golpes.

720021-942210_20081007_screen008Tédio é uma palavra que cabe bem ao combate do novo Tales of Symphonia. Raramente é neces- sário apertar mais do que um botão para ganhar as lutas. Ainda é possível utilizar as Artes – o equivalente a magias no jogo – mas isso quase nunca é necessário. Além disso, as Artes de Emil são pouco diversificadas, parecendo, na maior parte do tempo, apenas variações das que você tinha no início de sua aventura. Nem mesmo contra os chefes o ritmo das batalhas muda. Talvez você tenha que pausar o jogo e usar um item de cura uma vez ou outra, mas, tirando isso, o esquema é o mesmo. Aperte o botão A até que a vida dele se esgote e continue a história.

283952-9Há, entretanto, um ponto muito inte- ressante relacionado aos combates, mas infelizmente muito mal explorado. Devido a eventos re- lacionados à trama, é possível que Emil crie pactos com os monstros vencidos em batalha, fazendo com que eles se juntem à sua equipe. O sistema de captura é bem simples, mas funcional e interessante de ser feito. Com exceção dos chefes e algumas lutas especiais, é possível capturar todos os monstros do jogo. É verdade que na maioria das vezes encontramos o mesmo modelo de inimigo em diversas dungeons, apenas com cores diferentes. Mas, ainda assim, a variedade é bem grande e alguns deles são muito interessantes. É muito divertido usar uma nova combinação de monstros em momentos diferentes já que seu ataque em equipe muda, mesmo que pouco, dependendo dos elementos dos companheiros sendo usados. Porém, como dito acima, há um grave problema com isso. O primeiro deles reside no fato de que você nunca estará sozinho. Marta – a outra protagonista deste título – e um ou dois membros da equipe do jogo original o acompanharão a todos os momentos. Você pode até ignorar o fato de que os personagens humanos têm habilidades e golpes muito mais variados e interessantes do que os monstros, além de serem muito mais fortes. Contudo, não é possível deixar de lado que monstros não podem usar itens em combate. É verdade, ainda é possível fazê-lo com Emil. Só que isso quer dizer que, caso Emil morra no meio de uma luta, é Game Over instantâneo. Não há nem a possibilidade de apenas assistir o resto do confronto e torcer para que seus monstros dêem cabo dos inimigos. E isto não acontece caso você tenha humanos em sua equipe, já que pode comandá-los a usar um item de ressurreição e continuar a luta normalmente.

Marta, a outra protagonista do título
Marta, a outra protagonista do título

A falta de capricho também transparece em alguns outros pontos. São detalhes que mostram o quão pouco atencioso os produtores foram. Por exemplo, o menu de compra e venda de equipamentos é um dos mais truncados e sem sentido possíveis. Em toda a aventura, só podemos trocar o equipamento de Emil e Marta, os outros companheiros humanos sempre terão um equipamento impossível de ser alterado. Por alguma razão desconhecida, a opção “equip” do menu de compra permite apenas acessar os equipamentos de Emil. Para que vejamos os de Marta, é necessário sair do menu de compras e ir a menu geral, onde também é possível trocar o de Emil. Não há sentido ou utilidade para o menu encontrado dentro da loja de compras, já que ele permite que você equipe apenas um de seus personagens. Outro fato incompreensível está na venda de itens. É possível vender apenas um tipo de item de cada vez. Por exemplo, você decide vender as armaduras que não está usando. Seleciona, então, as que quer vender e confirma. Isto, instantaneamente, faz com que você volte à tela principal de compra e venda de itens. Você tem de novamente selecionar a opção “vender”, escolher um outro tipo de item e repetir todo o processo. Mais um fator extremamente irritante é que, cada vez que alguém se une ou vai embora de seu time, uma mensagem aparece para informá-lo de que sua formação mudou. Isto não seria problema nenhum, se não fosse pelo pequeno detalhe de que personagens saem de seu time constantemente para, segundos depois, retornarem. E todas as vezes que fizerem isso, lá estará a mensagem avisando o que aconteceu. Grande parte dessas reclamações podem soar como meras trivialidades, como se eu estivesse dando atenção demais a pequenos detalhes que não causam um impacto tão negativo ao jogo. Até certo ponto é verdade, admito. No entanto, é exatamente o acúmulo de detalhes como esses que mostram a falta de cuidado tido com o título. Podem não ser empecilhos muito grandes à jogabilidade, mas não são, de maneira nenhuma, pontos que podem ser visto como positivos. São mostras de desleixo, algo inaceitável vindo de uma empresa do calibre da Namco.

Todos os protagonistas do Tales of Symhponia original fazem aparições

Todos os personagens importantes do Tales of Symhponia original fazem aparições

A aventura dura cerca de vinte e cinco horas, curto para o gênero, mas um alívio para o jogador neste caso. Mesmo ignorando todos os problemas já citados, o restante de Dawn of the World consegue, no máximo, alcançar a mediocridade. A estrutura do jogo segue a mesma dos RPGs clássicos: a coleta. Lembra como no primeiro Final Fantasy tínhamos que viajar pelo mundo para restaurarmos cada um dos orbes? Ou quem sabe você se lembre de pegar espadas, braceletes e orbes de todos os elementos em Crystalis? Talvez tenham lembranças de ir atrás de todos os crests em Dragon Warrior? De qualquer maneira, o que quero dizer é que este Tales of Symphonia segue o padrão mais velho dos RPGs. Não estou falando mal de nenhum dos três jogos citados acima, eram estruturas interessantes antes, na época em que esta era algo novo. Hoje em dia essa progressão não funciona, é apenas chata e previsível. E até mesmo neste simples sistema Dawn of the New World falha. O ritmo em que coletamos os Centurions Cores (o itens que precisamos pegar no jogo) é completamente descompassado. Às vezes parece que a trama principal está progredindo, mas em muitos outros momentos estamos fazendo os desvios mais estúpidos e sem sentido possíveis. É tão óbvio se tratar de uma artimanha para artificialmente aumentar a duração do jogo que chega a causar vergonha. Para piorar, a esmagadora maioria das dungeons que você visitará são exatamente as mesmas encontradas no título original. A única diferença está no fato de que quase todas sofreram alguma catástrofe, tornando-as menores. Ou seja, não só o cenário é o mesmo, como a área de exploração é ainda menor, tornando uma já tediosa tarefa em algo ainda mais sem graça. Da mesma maneira que aconteceu com seu predecessor, demora-se demais até que os eventos verdadeiramente importantes da trama apareçam, e quando eles o fazem vêm todos de uma só vez.  Não que a história seja complexa ou difícil de compreender. Mas essa certamente não é a maneira mais hábil de contá-la.

Tales of Symphonia: Dawn of The New World é apenas uma sombra do primeiro Tales of Symphonia. A única coisa que o separa do completo anonimato é o fato de ser continuação de um jogo de sucesso, que por sua vez pertence a uma franquia bem popular. Somente os fãs fervorosos da série, ou aqueles famintos por qualquer RPG no Wii, encontrarão satisfação aqui. Ao restante, fiquem longe. Existem coisas melhores a serem jogadas.

Uma resposta a Novo só no nome – Review the Tales of Symphonia: Dawn of The New World

  1. Tricia diz:

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